Brasília, 4 de agosto de 2026.
Em suas diversas denominações, acumuladas ao longo de pelo menos um século de existência, as favelas brasileiras representam 8,07% da população, segundo o Censo de 2022. Baixa regularização e igualmente frágil oferta de serviços públicos marcam o início e a continuidade desses territórios urbanos, que não fazem parte exclusivamente da realidade brasileira, nem mesmo em nosso continente. Agora, esse ambiente de entraves científico-políticos (veja quadro abaixo), conhecidos como favelas ou comunidades, podem ser os espaços com maior vulnerabilidade social, diante das mudanças climáticas, segundo o Centro de Estudos da Favela (Cefavela), da Universidade Federal do ABC (UFABC).
Os processos geológicos que marcam as favelas do país (uma verticalização mais caracterizada pela sua presença em morros) são responsáveis apenas por uma parte dessa vulnerabilidade. A ausência de planejamento urbano para a criação dessas comunidades recebe agora tratamento inverso em relação ao enfrentamento dos eventos climáticos extremos. Ou seja, o poder público, por diversos motivos, se mantém afastado desses espaços, e os pesquisadores não creem em avanços deste contexto, diante dos eventos extremos, mas sim em seu agravamento, em uma perspectiva de injustiça e racismo ambiental: áreas e populações marginalizadas historicamente sofrem mais com riscos ambientais já em evidência. É o que apontam análises como a do geógrafo Hugo Rogério de Barros, pesquisador do Centro de Síntese USP Cidades Globais, do Instituto de Estudos Avançados da USP.
Ao final da entrevista abaixo, ele lamenta que, diante de prognósticos como o avanço do nível do mar em cidades como a capital pernambucana, leve ao agravamento das condições de favelas feitas de palafita à beira mar. “Caso se consolide, isso só iria aumentar o abandono da área, pelo aumento do valor no investimento imobiliário e das infraestruturas urbanas”. E adverte que os problemas podem superar fronteiras estaduais e exigem medidas preventivas conjuntas entre municípios, estados e o governo federal.
“O momento é de olhar para dentro e pensar as reformas e manutenções que devem ser feitas para a prosperidade econômica, social e ambiental”.
Para isso, ele também convoca as profissões regulamentadas.
“Sem a intervenção desses profissionais, por meio das publicações e relatórios, a justiça ambiental urbana seria impossível de ser alcançada”.
Confira a entrevista.

Confea - Você sustenta a necessidade de a questão climática ser considerada em toda a cidade, mas tomando as características culturais da população periférica para incentivar uma cultura de saúde ambiental, prevendo a valorização da comunicação para isso. Como incentivar essa população a se engajar nesse processo? Quem seriam os responsáveis por sua condução?
Geog. Hugo de Barros - O governo ao elaborar os projetos na área de saúde ambiental, no processo de comunicação deve estar atento em buscar construir um vínculo intelectual e afetivo com os moradores, por meio de personalidades públicas que tenham uma boa intersecção de classe social no Brasil. As orientações podem incluir artistas, influenciadores e atletas em suas diversidades.
Confea - A ausência de infraestrutura poderá ser um dos fatores agravantes para o enfrentamento das dificuldades dessas regiões, diante de cenários de doenças decorrentes dos eventos extremos, como a dengue e doenças respiratórias?
Geog. Hugo de Barros - A ausência de infraestruturas está diretamente ligada à ancestralidade financeira e ao meio técnico – científico e informacional – daqueles grupos humanos, portanto, pensar em recomendar medidas como o uso de remédios de asma (as famosas bombinhas) e a aplicação de ar condicionado, às quais são parte das medidas de adaptação, é algo fora do alcance no cotidiano. Tais aglomerações urbanas da forma como são apresentadas, no presente momento, elevam a vulnerabilidade a doenças facilitadas pelos extremos climáticos.
Confea - Como foram desenvolvidas as pesquisas conduzidas pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, de que você participou?
Geog. Hugo de Barros - As atuais pesquisas desenvolvidas junto à FAU USP foram elaboradas no segundo semestre de 2012, junto a um precioso processo de trabalho de campo e coleta de dados. Para não faltar ao respeito à sociedade paulista, foi definido um trabalho com uma metodologia desenhada com o sensoriamento remoto e geoprocessamento em um Sistema de Informações Geográficas – SIG. Além da FAU, foi feita a parceria com a FFLCH USP, IAG, FSP, IEA na Universidade de São Paulo. Também foram realizadas etapas junto ao INPE, UNESP e agências de fomento, como FAPESP e CAPES. No Brasil, contamos com a coorientação da UFCG e no exterior tivemos colaboração com a Universidade de Columbia na Cidade Nova York, na atualidade os trabalhos estão em desenvolvido em parceria com o Departamento de Estudos Urbanos e Planejamento do Instituto de Tecnologia de Massachusetts – MIT.

Confea - Uma de suas preocupações vem sendo as Ilhas de Calor. Explique como esse fenômeno tende a ser mais agravado em relação às favelas.
Geog. Hugo de Barros - O calor é um elemento termo sensível que atinge de forma mais intensa as zonas equatoriais e intertropicais do globo terrestre. Os agrupamentos urbanos, nestas zonas de forte incidência de radiações solares, fazem com que o calor seja um perigo à saúde coletiva. Os materiais utilizados na construção dos chamados “barracos”, com o uso de telhados de zinco, amianto e alumínio promovem um forte aquecimento da superfície e um alto grau de reflexão agressiva de energia eletromagnética. Tudo isto promove as ilhas de calor diurnas e põe em risco a saúde de grupos economicamente frágeis, enquanto que outros grupos mais ricos não passam pelo mesmo problema ambiental dentro da mesma cidade e isto causa uma cegueira /abandono de gestão pública.
Confea - Qual a contribuição da Geografia para esse processo de enfrentamento?
A geografia, no contexto dos impactos dos eventos extremos, tem o papel de revelar que os grupos sociais não vivenciam tais problemas do mesmo nível de vulnerabilidade social e perigo ambiental, de tal forma se torna preciso uma abertura intelectual para a prática da gestão integrativa a fim de equilibrar o organismo-sistema-urbe. A Ilha de Calor revela que a qualidade ambiental dentro das malhas urbanas não é a mesma, de tal maneira que é preciso pensar a saúde ambiental e financeira de toda a malha urbana.
Confea - Entre outras características, a definição do IBGE para as favelas ou comunidades argumenta que elas são formadas sem planejamento urbano, nem acesso a outros serviços. Mesmo que em alguns casos o poder público reverta parte dessas características, o senhor considera válido essa conceituação, tal como foi conduzido o Censo de 2022?
O trabalho do IBGE é algo que externaliza a excelência. A questão do conceito é a dimensão antropológico-cultural que levou à criação destas unidades habitacionais. O conceito do IBGE descreveu o produto das relações humanas com a natureza e a criação do conjunto de objetos que formam as favelas. Porém, do ponto de vista humanístico – “sociológico/geográfico” – a nossa compreensão do que é favela precisa de amadurecimento.
Confea - A redução dos impactos climáticos nas favelas depende mais de sua adaptabilidade do que de ampliar a resiliência para as possíveis consequências desses eventos extremos?
Geog. Hugo de Barros - Cobrar dos moradores das favelas mais resiliência seria algo que beira a falta de humanização do sistema social brasileiro. O adequado é a formulação de “Projetos de Intervenção Urbana”, com as adequadas medidas de planejamento ambiental e urbano frente aos eventos climáticos extremos, que também contribuam para a continuidade da vida cultural, afetiva e política de tais grupos.
- Favelas: uma história que vai de Canudos às vilas latino-americanas
Em 2024, o Distrito Federal encampou uma campanha contra a inclusão da Região Administrativa (desde 2019) do Sol Nascente entre as 12.400 favelas e comunidades urbanas registradas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apenas alguns meses depois, os dados do Censo foram fechados, concluindo que a carioca Rocinha (72.021 habitantes) continuava à frente do Sol Nascente (70.908 habitantes), seguidas pela favela, ou comunidade, de Paraisópolis (58 mil habitantes), na capital paulista.
O governo do Distrito Federal sustentou que a Sol Nascente seria uma cidade, graças aos investimentos em urbanização e infraestrutura realizados. Desconsiderava que o conceito envolve, entre outras características, os territórios (inclusive planos) criados pela própria população, sem interferência governamental, e não apenas a imagem que ficou desde que o morro da Providência, na região central do Rio de Janeiro, passou a ser ocupado pelos ex-soldados da Guerra de Canudos (lembrando, e estigmatizando, as condições que enfrentaram na ocupação do arraial baiano, como a planta urticante “faveleira”, em finais do século XIX). Não que essas condições não fossem já características da realidade urbana brasileira, basta lembrar da obra “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, publicada sete anos antes do retorno dos últimos soldados daquela guerra.
A polêmica se deu com a retomada do uso do termo no censo demográfico de 2022. “Favelas e comunidades urbanas” substituíram “aglomerados urbanos excepcionais”, “setores especiais de aglomerados urbanos” e “aglomerados subnormais”. Se em alguns locais o termo “favela” é considerado uma resistência histórica, em outros, “comunidades urbanas” identificam aquelas hoje denominadas “comunidades”, “quebradas”, “grotas”, “vilas”, entre outros termos. Até 1960, “favelas” já era reconhecido pelo Instituto. A característica da verticalização das favelas brasileiras passou a abranger também apartamentos, geralmente construídos irregularmente por milicianos, principalmente no Rio de Janeiro.
A insegurança jurídica da posse; a ausência ou oferta incompleta e/ou precária de serviços públicos, como iluminação, água, esgoto, drenagem e coleta e lixo; o predomínio de edificações, arruamento e infraestrutura geralmente feitos pela própria comunidade, sem os parâmetros oficiais, e ainda a localização em áreas de risco ou com restrição, como sob linhas de transmissão e áreas protegidas são as condições para o enquadramento como “favelas” ou “comunidades”.
Por sinal, se aplicarmos a orientação do IBGE a outros países, certamente cairá por terra o mito de que esse tipo de habitação seja uma exclusividade brasileira, incluindo, assim, por exemplo as “Villas Miseria” e os “Bairros Populares” argentinos. Também no morro, o assentamento Cerro Santa Ana, base de Guayaquil (Equador), surgiu ainda no século XVI. No Peru, são chamadas de “Pueblos Jóvenes”. No Uruguai, “cantegril”, enquanto na Colômbia, de “barrios populares”. Na terra do garoto que morava em um barril, as favelas e assentamentos (mexicanos) são chamados de “Ciudades Perdidas”.
Apesar dos nomes mais simpáticos, em alguns casos, essas regiões reúnem características similares às enfrentadas pelas populações brasileiras. No caso das argentinas, as “villas” têm hoje com cerca de 30 mil habitantes, em grande parte devido à “higienização” desencadeada pelo regime militar local.
Confea - Essas iniciativas, essas políticas públicas foram praticamente esquecidas durante décadas, em todos os níveis de gestão. Quais são os possíveis danos sociais e econômicos decorrentes da tendência de pouco ou nada ser feito para preparar essa população para essa nova realidade?
Geog. Hugo de Barros - Os extremos climáticos oferecem um grande risco à saúde dos organismos humanos e de alguns animais, principalmente em aglomerações precárias como favelas e cortiços. Caso os poderes público e privado, em situação de gestão, venham a negligenciar a questão, de imediato ocasionaria o aumento das desigualdades intraurbanas. O que, teoricamente, tenderia a aumentar todos os casos de violências urbanas, já conhecidos e vividos nas metrópoles brasileiras.
Confea - Como as profissões regulamentadas podem contribuir para essa adaptabilidade e para essa resiliência?
As profissões regulamentadas funcionam como uma espécie de portal, ou seja, são uma ponte entre os cidadãos que vivem tais problemas no cotidiano e aqueles que apenas prestigiam intelectualmente a questão (classe dominante). Faz-se notório que, sem a intervenção dos profissionais regulamentados, por meio das publicações e relatórios, a justiça ambiental urbana seria impossível de ser alcançada.
Confea - Ainda pouco conhecido da população, o Índice Confea de Infraestrutura do Brasil (Infra-BR), criado este ano, pode contribuir para o dimensionamento desses desafios?
Sim, a iniciativa do projeto Infra-BR é brilhante, pois proporciona à comunidade de profissionais ligados à engenharia e a áreas afins, uma segurança cibernética para coexistir no cotidiano do país com maior integridade, político-financeira e evita violências por confrontos políticos. O projeto traz luz ao cenário de desigualdade da eficiência dos estados brasileiros em nível da gestão pública.
Confea - As unidades federativas e seus entes podem se comprometer separadamente para alcançar esses objetivos? Esse seria o momento para que o país passasse a vivenciar uma realidade de planejamento com mais sinergia?
As unidades federativas devem buscar em suas diferentes realidades econômicas agir em constante diálogo e troca de experiências, pois tais fronteiras são convenções que podem não funcionar no cotidiano, ou seja, o problema de um estado pode afetar diretamente os demais. Em relação à sinergia, sim, visto que, em nível internacional, o Brasil não está com um câmbio de moeda favorável. Portanto, o momento é de olhar para dentro e pensar as reformas e manutenções que devem ser feitas para a prosperidade econômica, social e ambiental.

Confea - Tecnologias como a escada-nexo podem ser utilizadas para dinamizar a adaptabilidade. É possível desenvolver outras soluções para modificar essas realidades, independente dos eventos climáticos se manifestarem?
Geog. Hugo de Barros - A questão da mobilidade e acessibilidade em áreas de alta declividade é algo muito preocupante, principalmente nos ambientes urbanos. A verdade é que todos os esforços em nível de engenharia devem ser empregados na tentativa de resolução da questão a nível nacional, ou podemos ter a falta de infraestrutura como um entrave financeiro.
Confea - Uma das preocupações será o avanço do mar, especulado para cidades como Recife. Nesse caso, uma população muito grande seria atingida, não apenas nas favelas. Como incentivar os governos a investirem em uma prevenção apontada como bastante onerosa e até mesmo incerta?
Geog. Hugo de Barros - As projeções meteorológicas apontam para um aquecimento médio da atmosfera global em cerca de 1,5°C e como consequência vamos ter um desequilíbrio que irá levar ao aumento de ocorrência e intensidade dos extremos climáticos como as ondas de calor e frio, as secas e as fortes precipitações. No mesmo quesito, o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima) também apresenta a hipótese de que vamos conviver com degelo das geleiras e um acentuado aumento do nível do mar. Dentro deste cenário, o município de Recife e sua área costeira foram considerados como área de vulnerabilidade, devido ao aumento do nível do mar.
É importante lembrarmos que o Brasil está no grupo de países em desenvolvimento, ou seja, não vivemos em um país desenvolvido onde as infraestruturas dão conta das demandas populacionais e suas pressões externas e internas. Deste modo, Recife – como uma metrópole de um país em desenvolvimento que se encontra em uma área de vulnerabilidade ao aumento do nível do mar, nas perspectivas da elite mundial – deve receber investimentos para a proteção ambiental da cidade e depois ser arquivada como área não prioritária para investimentos, isto seria uma perspectiva racional do que está em ocorrência. No entanto, temos a dimensão política e midiática da situação, onde os agentes públicos e privados do município do Recife, podem agir em campanha a favor da cidade como área para investimentos financeiros. Temos, para o futuro, um jogo aberto onde tudo pode acontecer, mas não podemos esquecer que Recife está vulnerável.
Só de existir o questionamento, isto já afasta os investidores econômicos, sociais e políticos da área. As projeções são de certa falência/abandono, perto do que aquela área poderia ser. Em Recife, existem as favelas ribeirinhas, com a presença de palafitas, próximo aos manguezais, um ambiente bastante hostil em termos de qualidade ambiental. Uma projeção (hipótese) de aumento do nível do mar, caso se consolide, só iria aumentar o abandono da área, pelo aumento do valor no investimento imobiliário e das infraestruturas urbanas.
Henrique Nunes
Equipe de Comunicação do Confea
